TEMPS D'IMAGES 2010
28 OUT > 21 NOV
   
         
   
         
   
         
   
         
   
         
   
         
   
         
   
         
   
         
     
 
 
ana rito
THERE IS NO WORLD WHEN THERE IS NO MIRROR
   
 

Donnez-moi donc un corps»
Deleuze

A artista visual portuguesa Ana Rito (Lisboa, 1978) apresenta pela primeira vez uma nova série de vídeo-instalações e filmes finalizados na residência artística no Carpe Diem – Arte e Pesquisa, antigo Palácio Pombal, em Lisboa. Prosseguindo com a linha orientadora de obras anteriores (Encore, Museu Colecção Berardo, Lisboa, Puppe Project, Mario Mauroner Contemporary Art, Viena) caracterizadora do seu trabalho, a artista explora a complexidade do corpo-cinema deleuzeano e as suas possibilidades enquanto imagem afectada pela dimensão temporal, proto/pseudo narrativa, psicológica e instalativa. Fazendo do happening e da performance matéria primordial de reflexão, utiliza o vídeo como meio operativo que possibilita o entendimento do corpo (feminino) enquanto corpo-político, no qual os gestos e poses tendem, numa referência a Godard, a construir as atitudes da carne como categorias do espírito.

Na exposição individual There is no world when there is no mirror, que se instala no mesmo espaço físico onde as obras foram terminadas, é apresentado um conjunto de momentos que poderíamos considerar aqui de para-vídeográficos, caracterizados pelo tom cerimonioso e litúrgico de duas personagens femininas que insistentemente co-habitam o espaço. Tendo como referência o happening Koncert Morski, 1967, de Tadeusz Kantor, Rito concebe Semi-Panoramic Sea Concert (2010), uma nova vídeo-instalação, para a antiga cozinha do Palácio Pombal. Nesta peça, uma personagem feminina “recria” o concerto ao mar num ritual de gestos e repetições hipnóticas que redimensionam a obra do autor polaco. Para a artista, Kantor é uma figura incontornável do panorama Europeu no que concerne ao trabalho sobre a performance, o happening e mesmo o teatro nos seus diversos cruzamentos com as artes visuais. Em Semi-Panoramic Sea Concert (2010) assistimos a uma primeira incursão que utiliza a rodagem em exterior como lugar do acontecimento, e, numa perspectiva neo-romântica dimensionável do Homem perante a Natureza, transporta o corpo da performer do espaço arquitectural para o espaço “lá fora”, conseguindo reflectir no exterior a dimensão interiorizável do Eu.
As obras Horseback (2010) e Théâtre Privé (2010) problematizam o enquadramento do gesto, desta feita utilizando uma das salas do Palácio Pombal como elemento cénico habitável constituído por atitudes e lugares. Para a autora, é o gesto que acorda o corpo e não o corpo que dá vida ao gesto. Segundo Carlos Vidal, as obras videográficas e as obras fotográficas de Ana Rito confluem para uma “pura teatralidade”, e é esse elemento estilizável, essa fluctuatio animi de que falou Spinoza, que caracteriza estas obras e este projecto no seu todo.
Assim, em Horseback (2010) vemos duas mulheres que percorrem um conjunto de salas. Deslocam-se vagarosamente, sendo que uma delas, de joelhos, carrega às costas a outra que fita o espectador durante toda a cena. Em Théâtre Privé (2010) uma figura feminina não chega a entrar numa sala, que depreendemos ser o nosso local de observadores. Apenas se apresenta, espera um pouco e retira-se. Neste conjunto de estados e permanências, quasi solilóquios corporais, pode mesmo referir-se Deleuze quando descreve a noção da encenação e da pose no cinema como gestos não reais e não imaginários, mas algo entre os dois mundos, uma espécie de teatralização da imagem que se diferencia do aspecto canónico do teatro mais ortodoxo. Salientaríamos também a obra Innuendo (2010), onde assistimos a uma coreografia realizada por uma personagem que utiliza uma cortina como constrangimento físico, limitativo dos movimentos que procura realizar sem sair do mesmo sítio.
Importa finalizar com uma referência a Bruce Nauman, quando explora a repetição e o cansaço ou fadiga na procura do gesto que ilustra uma ideia de transgressão, mas também de unificação entre o espaço circundante e o limite do corpo, seja em torno do perímetro de um quadrado, seja a ocupação de uma arquitectura pombalina.
A exposição There is no world when there is no mirror é concebida, pois, como um reflexo, um reflexo que devolve o olhar dialético entre a imagem e a sua ausência, dois extremos sempre presentes no trabalho videográfico de Ana Rito.
Hugo Barata

 
Performance
Performers Sophie Leso e Rita Lucas Coelho | Concepção e Direcção Artística Ana Rito | Apoio Fundação Calouste Gulbenkian